O FAZER COMO PRODUÇÃO DA VIDA: COTIDIANO, BEM VIVER E TERAPIA OCUPACIONAL EM UMA COMUNIDADE INDÍGENA KIRIRI
DOI:
https://doi.org/10.56238/arev8n2-135Palavras-chave:
Povos Indígenas, Cotidiano, Terapia OcupacionalResumo
No cotidiano das comunidades indígenas, as práticas artísticas, os trabalhos manuais e as expressões corporais constituem modos fundamentais de produção da vida, transmissão de saberes e afirmação cultural. Na comunidade indígena Kiriri, essas práticas expressam formas próprias de organização social, política e simbólica, alinhadas à perspectiva do Bem Viver e à resistência frente a processos históricos de silenciamento e hierarquização cultural. Este estudo teve como objetivo compreender, a partir da perspectiva dos próprios integrantes da comunidade Kiriri, como se configura o “fazer” no cotidiano e quais relações sociais são produzidas e sustentadas nessas práticas. Trata-se de uma pesquisa de caráter exploratório, fundamentada na abordagem da pesquisa participante, que possibilitou a inserção da pesquisadora no cotidiano comunitário, respeitando os modos locais de produção de conhecimento. A produção dos dados ocorreu por meio de conversas informais, diário de campo e registros fotográficos, sendo a análise realizada a partir da Análise de Conteúdo das narrativas dos participantes. Os resultados evidenciam que o cotidiano indígena se organiza segundo uma lógica distinta do produtivismo hegemônico, orientada por um “fazer” que articula dimensões humanas e não humanas, sustentado pela afetividade, pela coletividade e pela relação com o território. Esse modo de viver revela práticas de (re)existência que produzem sentido, identidade e continuidade cultural, dialogando com princípios da Terapia Ocupacional ao compreender o fazer cotidiano como espaço de produção de vida, vínculos, cuidado e participação social, tanto no âmbito individual quanto coletivo.
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